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Excelente
Gaming

Devil May Cry 5

Pessoalmente falando, minhas expectativas eram bem neutras quando comecei meu primeiro playthrough de Devil May Cry 5. E não é por menos. É fácil saber onde você está entrando quando se trata da série: haverá um bando de personagens destilando frases de efeito, combos inacreditavelmente legais, demônios dos mais variados tipos e texturas, um verdadeiro espetáculo sangrento. São 18 anos de idade que dão à série esse respaldo pro que há de vir. Nada mais justo que eu deixasse que o jogo me levasse e me mostrasse que tudo que ele representa estaria mais forte e mais vivo do que nunca em sua quinta iteração, mostrando que não se levar à sério às vezes pode ser o suficiente para se alcançar algo sensacional. Dada essa situação, é com imenso prazer que eu digo que já no primeiro capítulo de DMC5 eu já queria largar o controle e só admirar o quão divertido esse jogo conseguiu ser.

Aos não-iniciados, é necessário saber pouco sobre a série para entender o que acontece aqui. Devil May Cry conta as histórias e aventuras de Dante, um caçador de demônios cujas características marcantes envolvem um aparente descompromisso gigante com tudo que há de sério no mundo e uma espetacular aptidão para matar criaturas infernais das maneiras mais descoladas possíveis. Ao longo dos anos, as várias iterações da franquia continuamente ofereceram uma visão melhor do que Dante realmente representa e detalharam suas origens, seu passado e suas motivações. Os jogos também abrem as portas para um bom elenco de suporte, constituído de personagens carismáticos o suficiente para serem lembrados mas nunca excelentes a ponto de roubar os holofotes do nosso extraordinário protagonista.

E no meio disso tudo existe também a famosa tentativa de reboot da série, com um Dante mais adolescente, mais nervoso e mais… exótico. Colocando de maneira branda… Não se fala muito sobre esse jogo por aí.

Assim chegamos ao passo de número cinco da série. E o primeiro Devil May Cry numerado em onze anos começa vibrante. Já de cara é possível perceber que a RE Engine, utilizada em Resident Evil 7 e no remake do excelente Resident Evil 2 simplesmente brilha ao renderizar os modelos novos de Dante e cia. As texturas e a fluidez dos gráficos saltam aos olhos e cada arma, cenário e detalhe se aproveita visivelmente disso. Resumindo: Esse jogo é bem bonito.

E esse esmero com toda a parte visual só dá mais destaque aos nossos protagonistas. Sim, no plural. Porque mesmo que ninguém consiga roubar o foco do lendário caçador de demônios, Devil May Cry 5 é distribuído em três pontos de vista diferentes. Naturalmente, Dante não poderia faltar no elenco de personagens jogáveis, mas ele é acompanhado pelo novato cabeça-quente Nero – que já é familiar aos fãs por ter aparecido no quarto jogo da série – e pelo misterioso V que, bom… É um personagem misterioso. Sério, o título dele é “O Misterioso”, eu não consigo ser mais literal do que isso. O elenco coadjuvante completa o grupo, constituído por personagens já conhecidos pelos fãs da série, como Trish e Lady, e apresentando a novata Nico, inventora neta da criadora das icônicas pistolas de Dante e que auxilia a todos com novos equipamentos.

Os três personagens se revezam ao longo do jogo, como um livro que acompanha diferentes visões dos envolvidos na história no decorrer de seus capítulos. E o que os une é um combate direto contra um Rei Demônio do Submundo de nome Urizen. É uma premissa extremamente simples, considerando o que a série geralmente representa: Um enorme demônio coloca em curso um evento que pode significar o fim da raça humana e de toda a vida no planeta aos olhos de quem vê o ocorrido. Nero, dono de sua própria agência (móvel) de caça às criaturas nefastas, naturalmente não quer deixar isso acontecer e vai buscar justiça. E assim o caminho dele se cruza novamente com o de Dante, que já se coloca em combate com Urizen, e V, que sabe as consequências da vitória de Urizen e entende que elas são catastróficas.

Para impedir a influência do Rei Demônio, os três personagens contam com características bem únicas em seus modos de combate que fazem a experiência ser extremamente diferente quando o revezamento ocorre. Nero conta com a espada Red Queen para seus ataques primários – uma arma que pode ser “aquecida” para executar golpes mais fortes, num conceito bem criativo – mas toda a personalidade da luta é modificada pelas Devil Breakers, manoplas criadas por Nico que oferecem habilidades vastamente diferentes de um modelo para outro, indo desde descargas elétricas guiadas até formatos de projéteis explosivos. As manoplas tem suas limitações, no entanto: toda vez que você é atingido enquanto estiver executando o movimento de uma delas, o equipamento é quebrado. Dada essa vulnerabilidade você só pode levar um número limitado de manoplas para o combate. No geral, Nero se mostra como o personagem mais básico de DMC5, mas ele já adianta a verdadeira norma do jogo: dominar qualquer um dos três protagonistas não é uma tarefa fácil.

Devil May Cry 5 Gameplay 2

Dante só reforça isso. Como já é tradicional, ele vem equipado com opções de armas brancas e armas de fogo, mas aqui o conceito é apenas superficial. Ele consegue levar ao combate quatro opções de cada um dos tipos de armas, e elas ampliam o leque de possibilidades de combinações de maneira gigantesca. Assim, suas estratégias comuns envolvem a troca regular de armas durante um combo, alternando as distâncias no processo. Junto com isso, Dante também conta com estilos que valorizam diferentes características de combate. Por exemplo, o modo Gunslinger irá oferecer melhor performance com sua seleção de armas de fogo; já o Trickster lhe dará uma opção de esquiva rápida. E por cima disso tudo, o Devil Trigger está presente: um modo extremo de combate onde o lado demônio do nosso herói emerge para causar a maior destruição possível em um curto período de tempo, aumentando significativamente a força e intensidade de seus ataques. A gama de opções intimida, mas utilizar o básico já é bastante satisfatório e dá conta da maior parte das situações em que o caçador de demônios é utilizado.

E chegamos a V, o último dos três. E ele é, na humilde opinião de quem vos fala, o auge da criatividade do jogo. O misterioso rapaz tem um estilo de luta extremamente singular que destoa muito do resto da série. Por causa da fragilidade do seu corpo, seus ataques são ineficazes, mas ele conta com uma ajuda toda especial de três invocações sombrias: o pássaro Griffon é o principal responsável por estratégias de longa distância; a pantera Shadow atua em combate corpo-a-corpo; e o golem Nightmare é utilizado em circunstâncias especiais com ataques devastadores em uma área grande. Utilizar Nightmare também libera o Devil Trigger de V, o que potencializa seus outros companheiros e, de quebra, coloca uma certa luz em suas conexões demoníacas. Apesar de contar com todo esse auxílio, um fator o destoa ainda mais dos outros protagonistas: Suas bestas conseguem apenas enfraquecer os inimigos. Em uma jogada extremamente criativa, V é quem tem que executar o último golpe em todas as suas lutas contra os demônios de Urizen.

Devil May Cry 5 Gameplay 1

A estrutura do jogo é de missões, onde geralmente você passa por várias salas infestadas de demônios até chegar a um inimigo maior, que é o “chefe” daquele capítulo. Algumas das fases te dão a escolha de um dos personagens: em alguns casos, você tem apenas duas escolhas e em outros você pode escolher entre um dos três. Cada missão é relativamente parecida com a anterior: Demônios, demônios, demônios, chefe. O trunfo do jogo está, contudo, na forma com que os combates são conduzidos. O carro-chefe aqui é que você não tem só que matar tudo que se move: você tem que fazer com estilo. E você utiliza o arsenal de cada um dos personagens das maneiras mais criativas para conseguir a maior nota possível – indo de D até SSS. Vencendo os combates você ganhará Red Orbs que podem ser utilizadas para comprar novas melhorias para os protagonistas, fornecidas novamente por Nico. Há também segredos nas fases: missões escondidas que lhe dão outros bônus nas suas barras de vida e de Devil Trigger.

Dadas essas opções e todo esse arcabouço montado, é seguro dizer então que sua jornada com Devil May Cry 5 será basicamente… Terminar o jogo. Várias e várias e várias vezes. O maior apelo estará no seu segundo playthrough, onde você já terá um número razoável de melhorias destravadas para seus personagens, mas você liberará dificuldades de jogo maiores. Então sua barra de vida maior e suas habilidades desbloqueadas serão úteis, mas você enfrentará inimigos mais fortes e maiores bem no início do jogo. E, nesse caso, não é o seu avatar que vai vencer os desafios, mas você também terá que melhorar como jogador para executar combos mais devastadores, entender o timing de esquivas e dominar por completo o estilo de jogo de cada um dos personagens.

E para chegar a esse domínio perfeito de combate, a Capcom adicionou ao jogo no dia 1º de Abril o modo Palácio Sangrento. Já tradicional à série, a idéia aqui é um eterno modo de sobrevivência onde você enfrenta hordas e hordas de demônios consecutivamente, pontuando e recuperando vida a cada etapa. Com 101 níveis diferentes e uma recompensa no final, a dificuldade só aumenta e suas limitações são claras: Deixar que o tempo acabe ou que sua vida chegue ao fim termina prematuramente a sua jornada. O modo então te força a desenvolver sua criatividade e seus instintos para ser eficiente e fatal em seus movimentos. Treinar no Palácio Sangrento é uma ótima maneira de conseguir Red Orbs para melhorias e te fazer um jogador mais ágil e acostumado com os controles do jogo.

Mas é difícil dizer que o jogo é perfeito. A simplicidade de modos de jogo que ele oferece é rasa e a repetitividade pode acabar cansando depois da média de dez horas de jogo que a campanha possui. Os demônios de Urizen por vezes são esquecíveis e pouco inspirados. A infinidade de comandos e possibilidades intimida, e é fácil parecer que você está perdido durante o jogo ou que seu esforço não está sendo recompensado. Isso pode levar a inimigos que conseguem ser desnecessariamente frustrantes ao longo do jogo. É uma evolução, contudo: Após a terceira ou quarta vez que você se decepciona com um inimigo forte, a curva começa a suavizar e você começa a entender o fluxo do combate e o que você precisa fazer para vencer. Mas em alguns casos a subida até chegar a esse nível é árdua, principalmente no início do jogo. Não chega a ser um aprendizado tão brutal quanto um jogo da série Souls, e essa é uma característica relativamente comum no histórico de Devil May Cry, mas que pode acabar sendo um empecilho para alguns jogadores.

Dito tudo isso, no entanto, a grande sacada de DMC5 é o seu total e completo descompromisso em se levar à sério. Ainda que você só aperte botões aleatórios sem rumo durante as partes de luta na dificuldade mais básica do jogo, é impossível não sorrir com os momentos absurdos e ridículos ao longo da história. Todos os personagens apresentados tem uma vocação para serem exagerados com as entregas de suas falas, seus gestos e suas ações. Dante, em especial, brilha em seus momentos de comédia, e Nero tem o ar perfeito de arrogância que se espera de um moleque que acha que dá conta de tudo e todos os inimigos que lhe enfrentarem. E V completa o trio equipado com uma calma dramática, sempre acompanhada de um verso de seu misterioso livro companheiro. Toda essa aspiração teatral faz com que os protagonistas levem gloriosamente a motivação da série de matar demônios da maneira mais grandiosa possível, e os personagens periféricos só ajudam a refletir isso. Nico e seu furgão fazem parte de um dos melhores exemplos possíveis: em todos os momentos em que ela aparece, o puro absurdo da cena só vai te lembrar que o jogo não quer saber de seus questionamentos profundos sobre lógica ou sentido. Tudo que é necessário é que você compre a idéia do jogo que o único compromisso feito aqui é te entreter. Da melhor maneira que ele conseguir.

No fim das contas, é um sopro de ar fresco ver Devil May Cry ganhar uma representação depois de tanto tempo longe. Cheio de personalidade, estilo e humor, o retorno de Dante é bem vindo e não decepciona. Repetitivo às vezes, mas a dinâmica de três jogabilidades completamente diferentes ao longo da história contribui maravilhas para manter a jornada interessante até o último segundo. Fica aqui a esperança de que o filho de Sparda não tenha que esperar mais onze anos para nos entreter de novo numa jornada tão envolvente quanto essa.

9
Excelente

Devil May Cry 5

Divertido. Descolado. Descompromissado. Onze anos depois, Devil May Cry 5 é a prova fatal de que a série ainda tem muito o que oferecer no estilo hack-and-slash. É bom te ter de volta, Dante.

Pros

  • Três diferentes protagonistas
  • RE Engine faz os visuais brilharem de tão bonitos
  • Humor e personalidade marcam o auge da série

Cons

  • Repetitivo às vezes por falta de modos de jogo
  • Inimigos pouco interessantes
Eu ainda estou pensando no que escrever aqui mas prometo que quando sair, vai ser muito legal!
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1 comment on “Devil May Cry 5

  1. Guilherme disse:

    Devil May Cry é um daqueles jogos que eu não sinto muita vontade de jogar, mas acho incrível assistir!
    Talvez por ter crescido assistindo o (nosso) Dante jogar, fazendo aqueles combos infinitos no ar, que faltavam quebrar o jogo de tantos pontos.

    A frustração de só conseguir fazer combo de uns 3 hits me afasta dessa série, ahahahah! Excelente e super completo review! Volte mais vezes! 🙂

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